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Legado Olímpico: a rota-artsy da Rio 2016

Vão-se os Jogos, ficam suas cores, formas e memórias. Tudo porque, com a renovação do Centro da cidade, a região se transformou numa grande tela em branco, onde a Prefeitura cuidou do esqueleto e a população tratou de colorir com muita festa, ocupação e arte. O que nos lembra que, por muito tempo, a arte nas ruas do Rio foi mal interpretada. Quantas vezes assistimos o grafite – e até as nossas belas profecias tão gentis – apagado por ser compreendido como simples pichação? Custou, mas depois de muita insistência, nossos governantes entenderam que a rua é nossa. Hoje institucionalizada, a arte de rua finalmente encontra a atenção – e o apreço – já conquistado em cidades como MiamiNova YorkBerlim e, claro, a nossa vizinha paulista, que faz bonito com seu Beco do Batman.

O destaque, claro, vai para o imenso mural de Eduardo Kobra – leia-se o maior grafite do mundo. Com quase três mil metros quadrados, a arte foi batizada de Etnias, e partiu do simbolismo dos Arcos Olímpicos para representar os cinco continentes, começando pelos africanos da tribo MURSI, região da Etiópia. “Essa mistura de povos é do DNA do Rio, não só pelas Olimpíadas, mas pela história da cidade de receber gente do mundo todo. O desenho lembra que somos todos do mesmo lugar, temos a mesma origem. Com tantas guerras e separações, quero justamente mostrar que é possível ser o contrário”, conta.
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A arte foi concluída bem a tempo do início dos Jogos e não foi a única. O corredor artístico GaleRio acaba de ser concluído na Orla Conde, como uma das maiores galerias a céu aberto do mundo, que mostra, em dois mil metros de extensão, obras em grafite de 20 artistas cariocas de estilos diversos. Um dos legados da Rio 2016, a nova rota aproxima composições antigas a novos traços de artistas como AcmeVik Muniz e Cazé e vai além do grafite, inspirando intervenções do francês JR e da prestigiada japonesa Mariko Mori. A gente foi atrás da inspiração de algumas delas, e dá para adiantar uma coisa: elas ficam ainda mais incríveis depois de explicadas. Dá só uma olhada! (por MARIANA BROITMAN) 

Antes de chegar à parede dominada por Kobra, o público que vem da Praça Mauá passa por diversas criações interessantes. E entre eles, está o grafite melancólico da paulista Rita Wainer, que elegeu a frase “saudade é amor, te sigo esperando” para sua estreia na Zona Portuária. A personagem criada pela artista paulista encara o mar enquanto espera o retorno de seu amor-marinheiro, como explicou a própria Rita. A pintura divide a calçada com a obra “Uniforme Amarrotado”, de Vik Muniz. O artista se inspirou num “uniforme escolar amarrotado” para texturizar a imensa fachada do número 293 da Avenida Rodrigues Alves (foto na galeria). Quando você amarrota uma coisa, você faz com que ela deixe de ser o que nasceu para ser”, brincou Vik.  À distância, o edifício parece um grande papel amassado que revela ilustrações a cada dobra, retirando a ideia negativa que vem com o adjetivo. Especialmente pela noite, quando fica ainda mais incrível iluminada. ”
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No mesmo Boulevard, está a irreverente instalação interativa de Acme, um balanço de madeira com forma de baleia na qual lê-se o lema “Amor, bondade, benignidade” (galeria). Inspirado num barco viking, a instalação realizado com o GaleRio, já estava guardada dentro de um galpão há um ano e agora deve ficar pelo Centro. “Foi bom ter conseguido instalar lá, estou tentando a atenção deles para ao menos manter a conservação das minhas obras”, explica. Completamente interativa, a baleia de Acme é na verdade um balanço. “É uma baleia cachalote, que tem um ‘caixote’ na barriga para trazer a lembrança da história do profeta Jonas no balanço do mar. Caixote é um nome antigo que as pessoas davam as casas nas favelas, que eram improvisadas com caixotes de feira. A baleia também foi um abrigo para o profeta Jonas quando ele tentou fugir do seu chamado perante Deus, e agora, ela está aí simulando o balanço do ventre”, conta. A obra está entre o AquaRio e o Armazém 8 que, diga-se de passagem também abriga o recém-finalizado painel “Cidade Submersa”. Com impressionantes 1826 metros quadrados, o o grafite já é alvo de cliques frenéticos de quem passa por ali (foto galeria), mostrando dois personagens vestidos com roupas de mergulho namorando debaixo d’água por meio do celular. Tempos modernos…

Você em lambe lambe: a arte de JR
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Um grande mosaico de fotos vem tomando forma na Zona Portuária graças ao artista francês JR e sua intervenção “Inside Out”. Lá mesmo, o público foi clicado em preto e branco em uma cabine improvisada, e teve sua imagem impressa em lambe-lambe para compor a colagem que ocupou inicialmente o chão e uma fachada na orla. A ideia já teve como cenário Londres e Nova York e agora enche de personalidade o Centro do Rio. O artista é o responsável pelas instalações gigantescas que simulam atletas em ação por vários pontos da cidade. JR fotografou jovens atletas que um dia poderão chegar aos jogos, pessoas que “continuam a trabalhar duro por conta de sua paixão pelo esporte”, a exemplo do sudanês Mohamed Younes Idriss, que é visto “saltando” de um prédio no Aterro – capa. A segunda instalação mostra a triatleta francesa Léonie Periault ascende das águas da Baía de Guanabara no Aterro do Flamengo, enquanto na terceira, um mergulhador desconhecido é pego pulando de braços abertos na praia da Barra na altura do Quebra-Mar (galeria).

#TeamRefugees: a vez dos refugiados
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Rostos conhecidos também colorem a orla graças aos artistas Simi e Cety. Graças a uma iniciativa da ONU, o pioneiro Time Olímpico de Refugiados ganhou espaço na orla. Composto por cinco atletas do Sudão do Sul – as corredoras Anjelina Nadai Lohalith e Rose Nathike Lokonyen, e os corredores James Nyang Chiengjiek, Paulo Amotun Lokoro e Yiech Pur Biel -, pelos judocas Popole Misenga e Yolande Bukasa Mabika, do Congo, pelos nadadores Rami Anis e Yusra Mardini, da Síria e o maratonista Yonas Kinde, da Etiópia, todos ganharam pintura na fachada a partir de fotos. O artista Sini comentou a obra extasiado: “Para mim, eles são os verdadeiros campeões, pela garra, determinação e coragem que cada um teve para abandonar seus países devido à guerra e poder recomeçar em outros lugares”.

Anel Olímpico
Ring de Mariko Mori
Abandonando de vez o corredor artsy, não há como deixar de falar do “anel olímpico” da japonesa Mariko Mori. Cinco anos depois de levar 500 mil pessoas ao CCBB para conferir a instalação Oneness, ela assumiu o desafio de colocar um gigantesco anel de acrílico no alto da Cachoeira Véu de Noiva, em Mangaratiba. Mariko já tem obras em Machu Picchu, nas pirâmides do Egito  e na Ilha de Páscoa, e a obra “Ring” faz parte de um projeto ambicioso de construir seis grandes instalações em pontos de natureza intocada do planeta. A primeira, “Primal rhythm”, foi instalada na ilha Myako, no Japão, em 2011. Para completar a missão carioca, Mariko com a ajuda de Marcello Leite Barbosa mobilizou geotécnicos, topógrafos e engenheiros hídricos para não causar nenhum dano ambiental no entorno, além de contar com um helicóptero de guerra para içar a escultura de 4 toneladas ao pico da cachoeira, a 58 metros de altura. A obra chamada “One with Nature”, que será instalada na cachoeira Véu da Noiva, em Mangaratiba, a 85 quilômetros da capital. O anel, que é azul e fica dourado no sol, tem como proposta aumentar a consciência para a preservação da natureza, e foi doada pela artista, como um legado para a cidade do Rio.

Curte arte de rua? O Instagram é o melhor dos guias. A primeira é a tag #StreetArtRio, livre e colaborativa, a segunda é a arroba @InstaWalkRio, que traça um mapa com mais de 50 obras urbanas exibidas no Centro do Rio, parceria da rede social com os artistas Acme, Luiz Zerbini, Raul Mourão, Rita Wainer and Vik Muniz.

 

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