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Afro Gourmet Chef Dandara Batista Crédito Divulgação MENOR

Afro Gourmet: uma cozinha de resistência e afeto

Somos um país de maioria negra. E um país que, culturalmente, teve muita influência africana, sobretudo na música e na religião. Mas quando pensamos na culinária é difícil enxergar essa influência além da feijoada e temperos baianos. Saímos para jantar em restaurantes japoneses, italianos, franceses, mas quantas vezes você programou com seus amigos uma ida a um restaurante africano? Percebendo essa ausência, e na base da “resistência e afeto”, como ela própria define a sua cozinha, a chef Dandara Batista abriu o Afro Gourmet, no Grajaú. “A culinária baiana, uma das minhas paixões, me levou à culinária africana.  Sempre me perguntei por que não temos nenhum local com essa comida aqui no Rio. Eu senti como se esse fosse o meu chamado. Já que não tinha ninguém aqui fazendo ou falando sobre a gastronomia da África, eu seria esta pessoa. E foi esse chamado que, de alguma forma, me conectou à minha ancestralidade”.

A história do Afro Gourmet começou como evento itinerante em 2016. Dandara propôs a um restaurante recém-aberto fazer um evento com comidas africanas e ver se existia interesse das pessoas nessa gastronomia. “O evento foi um sucesso e passamos a realizá-lo uma vez por mês nesse espaço”, conta. Daí começaram a surgir convites para feiras e eventos até, enfim, em 2018, virar um restaurante.

Amalá com rabada e acaçá (foto: Fabiana Cavalcante)

No cardápio, muitos temperos e pratos típicos de diferentes regiões da África, como a Cachupa, de Cabo Verde, preparado com as mesclas dos feijões fradinho e carioquinha, mungunzá (canjica), bacon, linguiça calabresa, carne seca, batata doce e cenoura; e o Polvo à moda de São Tomé e Príncipe, que traz tentáculos grelhados acompanhados de arroz de cenoura e banana da terra frita, finalizado com palha de raízes. Da cozinha dos orixás, o Amalá com rabada e acaçá, um prato à base de quiabo refogado no dendê e camarão seco triturado acompanhado de rabado; e o Efó com Peixe, um creme de espinafre com camarão seco ao lado de feijão fradinho com azeite de dendê e peixe grelhado, surpreendem o paladar.

“Há uma diversidade muito grande no continente africano. Pude perceber, por exemplo, em Angola, muitos pratos com carnes. Já em São Tomé e Príncipe, os frutos do mar dominam os cardápios. Em Angola se utiliza bastante o azeite de dendê, já em São Tomé usam mais o azeite de oliva. Quero conhecer muitos outros países africanos e pesquisar cada vez mais. Esse ano vou para Cabo Verde, e estou ansiosa para entender a cultura e a gastronomia das Ilhas”.

Outro destaque no cardápio do AfroGourmet é o Arroz de Hauçá, uma receita nigerina que tem como base o arroz de coco e leva carne seca refogada com molho de camarão feito com leite de coco e azeite de dendê. Esse último prato tem influência do povo Hauçá, que veio da Nigéria para o Brasil e aqui foi chamados de Malês, termo usado no século XIX para designar os negros muçulmanos que sabiam ler e escrever em árabe.

Arroz de Hauçá (foto: Fabiana Cavalcanti)

E os veganos também têm vez com pratos como o Funge de Banana da Terra, massa feita de banana da terra com molho de tomate e cogumelos; ou a Moqueca de Cogumelos, em leite de coco, pimentões, tomate, azeite de dendê com arroz branco e farofa.

O conhecimento da gastronomia africana veio, inicialmente, de pesquisas. “Consultei amigos africanos que vivem no brasil e também a Internet, já que não temos livros para pesquisa aqui no Brasil”. Mas antes de abrir o restaurante, Dandara fez uma incursão por alguns países africanos. “Durante minha viagem por Angola e São Tomé e Príncipe pude ver muitas semelhanças nas nossas comidas, como a utilização de raízes, farinhas, feijões. Sempre me perguntam se é fácil encontrar ingredientes no Brasil. É sim! Nessa viagem percebi que muitos ingredientes só têm outro nome. Como alfavaca, que em São Tomé chamam de Micocó; ou graviola, que chamam de sape sape. O que dificulta mesmo é não termos por aqui aulas dedicadas à gastronomia africana. E deveríamos ter, por toda contribuição deles na construção desse país”.

E para manter a troca e ampliar a difusão do conhecimento sobre a África, Dandara recebe no restaurante, frequentemente, cozinheiros africanos que preparam receitas dos seus países. “Nós não temos noção de que país da África viemos. Nossa história foi apagada e, para mim, a culinária é uma forma de manter o passado vivo”, explica a chef.

Restaurante Afro Gourmet
Rua Barão do Bom Retiro 2316, loja A, Grajaú
Terça a sexta-feira, das 18h às 23h; sábado, das 12h às 23h (Couvert artístico: R$ 13); domingo, das 12h às 16h
Telefone: (21) 3489-7354

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