Bloco do Sargento Pimenta invade palco do Teatro Riachuelo para show virtual neste sábado - Agenda CariocaAgenda Carioca

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Bloco Sargento Pimenta Foto: Guido Ferreira

Bloco do Sargento Pimenta invade palco do Teatro Riachuelo para show virtual neste sábado

“Não há tristeza que possa suportar tanta alegria. Quem não morreu da espanhola, quem dela pôde escapar, não dá mais tratos à bola, toca a rir, toca a brincar”. Essa marchinha se perdeu no tempo, mas foi, no carnaval de 1919, uma das mais tocadas nas ruas do Rio. Em 1918, o mundo sofria com a pandemia da gripe espanhola e, só na cidade, calcula-se 15 mil mortos. Mas o surto por aqui deu um tempo, e o feriado momesco de 1919 não só aconteceu, como ficou conhecido como “o maior carnaval de todos os tempos”. Não sabemos como será nosso 2021, mas os tempos são outros. A Internet deixa todo mundo mais próximo e, na onda das lives, um dos blocos mais queridos do Rio, o Bloco do Sargento Pimenta, faz seu primeiro show virtual neste sábado, 12, às 21h, dentro do projeto Teatro Riachuelo de Palco Aberto.

O motivo é nobre. Bom, nesses tempos incertos, todo tipo de arte e diversão que nos traga leveza já é nobreza o suficiente. Mas tem mais: o bloco vai aproveitar a oportunidade para arrecadar doações para seus músicos e equipe técnica, a maior parte sem trabalho desde o início da pandemia (link para Vakinha aqui); e também abordar temas sensíveis como a prevenção ao suicídio, aproveitando o mês do Setembro Amarelo. Lucas Sorriso, um dos diretores musicais do bloco, lembra que “Help”, apesar da harmonia feliz, era, na verdade, um pedido de socorro de John Lennon, que sofria de depressão à época. “Essa música era literalmente um pedido de socorro”.

O show, que vai acontecer sem público com transmissão pelo You Tube do Bloco, também vai contar com participações virtuais de artistas e de representantes de ONGs que realizam trabalhos em comunidades. Isso, é claro, sem abrir mão da mistura do iê-iê-iê britânico com ritmos brasileiros já tão conhecida das dezenas de milhares de pessoas que lotam o Aterro do Flamengo nas segundas de carnaval. No setlist, estão garantidos sucessos como o maracatu “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, a ciranda “Yellow Submarine”, o ijexá “Twist And Shout”, a marchinha “She Loves You”, o baião “Can’t Buy Me Love”, e muito mais. E abaixo, confira a entrevista completa com o diretor musical Lucas Sorriso; e os integrantes Leandro Donner (guitarra e voz) e Zé Motta (caixa):

A live do Sargento Pimenta acontecerá, não à toa, no Setembro Amarelo. Qual a importância disso e como vocês pretendem abordar o assunto?
LUCAS SORRISO – Esse assunto surgiu depois da imersão que fizemos no single “Help!”. Durante a quarentena, nós disponibilizamos uma gravação que já havíamos feito dessa música com um arranjo de samba afro e aproveitamos para gravar um clipe, cada um em sua casa, pra matar a saudade e acalentar o nosso público. Eu nunca tinha parado para interpretar a letra a fundo e sempre cantei “Help!” com a alegria que a melodia e harmonia da canção sugerem. Mas por trás de uma música alegre, uma mensagem mais profunda pode se esconder: John Lennon passava por um período de depressão e essa música era literalmente um pedido de socorro. Conforme nós íamos nos aprofundando nessa temática, tudo levava a reafirmar a ideia de que precisávamos falar sobre esse assunto, que normalmente não é muito abordado no meio musical, ainda mais no meio do carnaval. Mas, devido ao atual momento de confinamento e por a data da nossa transmissão no Teatro Riachuelo ser dois dias depois do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, achamos que seria o momento ideal para levantarmos esse debate. Atrás de uma máscara de alegria pode existir algo mais profundo e um pedido de socorro sufocado. Por isso, nosso desejo é tratar sobre esse tema de maneira didática e objetiva, convidando um profissional da área da saúde mental que está tirando algumas de nossas dúvidas e preparando um conteúdo importante, que será apresentado.

É a primeira vez que vocês voltam aos palcos desde o início da pandemia. Mas, dessa vez, sem público presencial. O que esperar dessa experiência?
LUCAS SORRISO – Confesso que não sabemos muito bem o que esperar, pois estamos acostumados com aquela troca de energia gostosa que acontece entre os músicos e o público. Nosso show é muito baseado nessa troca que a energia da percussão traz, em conjunto com a expressividade das guitarras, arranjos dos sopros e as mensagens de amor e paz dos Beatles, que reverberam por décadas ao redor do globo. Mas os Beatles também se distanciaram desse contato direto com o público, durante uma época, e se dedicaram às gravações de álbuns e filmes – e isso não impediu que a força das composições deles chegassem aos corações de seus fãs. Nosso desejo é esse: que a música traga paz e faça todo mundo dançar, amar e se sentir bem, mesmo que remotamente. Da banda vocês podem esperar toda a energia usual, porque quando a música começa não tem como ficar parado!

A classe artística foi uma das mais afetadas pela pandemia. Durante a live vocês pretendem arrecadar doações para músicos e equipe técnica, a maior parte sem trabalho desde março. Quantas pessoas estão envolvidas no projeto Sargento Pimenta?
LUCAS SORRISO – Somos um grupo grande, com algumas ramificações por dentro. Quem está à frente da transmissão ao vivo é o grupo de shows, que conta com 15 músicos, mais equipe técnica, produção e comunicação. Somos muitos e muito diversos. Mas encontramos nossa afinidade na música e no trabalho construído ao longo desses 10 anos, que acaba se confundindo com a nossa própria formação enquanto músicos. Todos do grupo possuem outros trabalhos fora do Sargento Pimenta, mas nenhum de nós menospreza a importância desse grupo em nossas vidas – para muitos, foi a força que faltava para a decisão de uma vida dedicada à música e às artes de forma geral, por conta da oportunidade de trabalho e remuneração que os shows nos proporcionaram durante esses anos. Nesse momento, a nossa rotina de shows faz falta para muitos e estamos sempre buscando formas de atenuar isso. Já houve períodos escassos de show, isso é normal em qualquer grupo. Mas pelo que estamos passando agora, a nossa geração não chegou a cogitar. Por isso é importante qualquer valor de doação para a nossa Vakinha, para continuarmos desenvolvendo esse trabalho, do qual cuidamos e ao qual nos dedicamos com tanto amor e carinho.

O Sargento Pimenta, mais do que um bloco, é um projeto: tem a banda que faz turnê; tem o bloco de carnaval com cerca de 100 ritmistas; tem a oficina do bloco, que prepara o ano todo a bateria para se apresentar no carnaval; tem coral. Qual o desafio e as reestruturações para manter todo essas bifurcações vivas durante esse tempo?
LUCAS SORRISO – Pergunta difícil (rs). Como estava explicando, nós somos muitos e muito diversos. Primeiramente acreditamos na empatia, para conseguirmos avançar sem pisar em nada ou em ninguém. Nesse momento, estamos perante uma pedra enorme no meio do nosso caminho, mas que com o trabalho coletivo, cooperação, auto-cuidado e cuidado com o próximo poderá ser transposta. Acreditamos também que essa live pode ser um pontapé nessa nova fase, que casa com os nossos 10 anos e que busca nos fortalecer enquanto grupo,  colocando o Sargento Pimenta como ponto de apoio para todos esses profissionais que vestiram e suaram a camisa, literalmente, ao longo desses anos. Assim como formar também um ponto de apoio e diálogo com o nosso público, com grupos e com projetos que apoiamos e que nos apoiaram nessa linda trajetória. A arte, música, expressão e criação são atividades inerentes do ser humano, nós sempre acreditaremos nela e estamos muito conscientes do papel que nos cabe nesse imenso emaranhado de ações que é a vida.

Muita gente faz um pré-conceito do Bloco do Sargento Pimenta como um bloco que “apenas reproduz músicas dos Beatles”. Mas quem está lá dentro sabe que a imersão na música e cultura brasileiras é imensa. Conte um pouco de como o projeto de “um bloco que toca beatles em ritmo de carnaval” cresceu para inserir tantos ritmos afrobrasileiros, muitos até desconhecidos do grande público do Sudeste, como ijexá, coco, maracatu etc.
LUCAS SORRISO – Isso começou lá atrás, nos primórdios do bloco. Temos muitos músicos da formação inicial tocando até hoje, uns mais de dentro, outros mais de fora, uns no grupo de shows e outros na oficina. Muitos desses músicos são formados como professores de música, principalmente pela Unirio, e a primeira formação do Sargento Pimenta contava com músicos do Baque Coletivo (grupo montado em uma matéria da Unirio pelo Felipe Reznik) e músicos do Bloco do Passo (grupo mont
ado por Lucas Ciavatta, criador do método O Passo). Ambos os grupos tinham forte influência de uma sonoridade percussiva e de canto, mesclando um repertório regional, com canções que iam desde loas de maracatu, passando por coco de embolada, cantos de maculelê e música popular brasileira. Essa referência de sonoridades foi trazida desde o primeiro ensaio que fizemos através do Felipe Reznik e Mateus Xavier e foi se aprimorando ao longo dos anos, com o desenvolvimento do projeto da autoria deles chamado “Encontro com Mestres”, em que são propostas vivências com mestres e mestras reconhecidos nacionalmente e regionalmente como protetores, cuidadores, detentores dos saberes de um povo. Então, de maneira resumida, o Sargento nasceu, cresceu e foi se aprimorando, sempre com essa paixão, interesse, estudo e respeito por esses verdadeiros arquitetos da nossa música popular brasileira.

Inclusive, durante esse período de isolamento, vocês fizeram algumas lives com grandes mestres da música brasileira, como Lia de Itamaracá, Assis Calixto, entre outros. Como foi essa experiência?
ZÉ MOTTA – O Bloco do Sargento Pimenta sempre foi uma porta de entrada para a pesquisa em ritmos e manifestações afrobrasileiras. Quem conhece o bloco e vem fazer aula com a gente na oficina de percussão, normalmente, entra por causa dos Beatles e se depara com uma vasta pesquisa da cultura popular, suas mestras e mestres. Todo ano a oficina vem com uma proposta: ano passado procuramos pesquisar alguns ritmos presentes no Candomblé de Angola e, para isso, tivemos como referência o Baba Dofono de Omolu. Ainda em 2019, na nossa pesquisa sobre o maracatu e o coco, tivemos a também incrível tutela dos, para nós, mestres: Rumenig Dantas e Emerson Santana. Esse ano, pré-pandemia, já havíamos decidido que seria o ano de pesquisar as mestras da cultura popular, trazer essa força e referência dessas mulheres pro foco do nosso estudo. Já tínhamos, inclusive, agendado encontros da oficina com Lia de Itamaracá, Mestra Joana Cavalcante, Dona Aurinha do Coco, Negadeza, Lazir Sinval e Deli Monteiro (do Jongo da Serrinha), Aline Valentim e Tenily Guian (do Maracatu Baque Mulher). Não sendo possível fazer essas vivências presencialmente, surgiu a ideia da “Temporada de Lives”, que procurou manter o tema das Mestras da Cultura Popular. Foi uma experiência incrível! Muito aprendizado e reverência a essas figuras tão importantes na formação da nossa cultura e do nosso país. Não vemos a hora de podermos realizar esses encontros presenciais e ter a alegria de receber essas mestras na nossa casa, na nossa oficina.

Sabemos que existe uma chance real de o carnaval não acontecer. Ou não acontecer do jeito que estamos acostumados. Como estão suas expectativas? E qual o plano B?
LEANDRO DONNER – Ainda hoje, por coincidência, estive pesquisando sobre o carnaval de 1919, tido como um dos melhores do século passado. Aparentemente, a pandemia de gripe espanhola foi controlada às vésperas do carnaval, o que permitiu que a farra momesca fosse das mais poderosas que o Rio de Janeiro – e o Brasil – conheceram. Já há cem anos, após a pandemia de gripe espanhola, se sabia que a realização do carnaval, marco de nossa cultura, só era possível em segurança. Celebrar os dias de “loucura saudável” que a data traz só faz sentido se o objetivo for poder retornar aos dias seguintes com saúde. Por sorte, naqueles tempos, o contágio foi contido a tempo dos festejos. Fica assim o carnaval, importante para a vida pulsante da cidade, como torcida adicional para que as vacinas saiam a tempo e permitam as aglomerações que celebrem saúde, e não o medo. Enquanto isso, vamos pensando em um passo de cada vez, cuidando das nossas trocas de ensino, tanto de percussão quanto no coral, on-line, e se apresentando sem público, com transmissão também on-line, quando acharmos que é algo que valha a pena para manter vivas as trocas, mesmo a distância, com o público, como é o caso desta apresentação de sábado.

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Bloco do Sargento Pimenta no Teatro Riachuelo
12/9 às 21h
Transmissão pelo Youtubewww.youtube.com/blocosargentopimenta 
Doações solidárias pelo: bit.ly/VakinhaBSP 

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