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Panmela Castro inaugura exposição com relatos de abusos contra mulheres

Por Alessandra Carneiro | Publicado em 5 de março de 2020

Não é à toa que a primeira exposição de portraits de Panmela Castro será inaugurada um dia antes do Dia Internacional da Mulher, além de ter produzido um painel grafitado especialmente para a ocasião no Shopping Leblon e que estará aberto ao público durante todo o mês de março. A artista visual e ativista ganhou destaque na primeira metade dos anos 2000 por sua luta pelo fim da violência contra a mulher. Nesta nova mostra no Museu da República, “Retratos Relatos”, que tem curadoria de Keyna Eleison, Panmela mostra uma nova faceta com 15 retratos inspirados em relatos reais, na sua maioria de abusos sexuais, físicos e/ou psicológicos.

Nascida e criada na Penha, Panmela Castro, que também atende pelo codinome de Anarkia Boladona, criou em 2008 o "Grafiteiras Pela Lei Maria da Penha", projeto que tinha o intuito de levar às mulheres da periferia mais informações sobre a recente lei que havia entrado em vigor em 2006. Dois anos depois, em 2010, ganhou o prêmio Vital Voices Global Leadership Awards na categoria direitos humanos, mesmo ano em que fundou a Rede Nami, uma ONG que usa o grafite para ampliar o direito das mulheres. Em 2017, foi chamada pela CNN como "a rainha do grafite no Brasil". E ano passado sua obra pintada no Wynwood Walls, famoso museu a arte urbana a céu aberto de Miami, veio cercada de polêmica. Na ocasião, a artista retratou uma menina que havia sido agredida por policiais em uma favela no Rio acompanhada da frase “Woman who filmed abused by police officers is beaten and arrested.” (algo como "Mulher que filmou abusos de policiais é agredida e presa"). No dia que acabou a pintura, a organização pediu para que Panmela refizesse o mural com outro desenho, pois, segundo eles, os policiais da região haviam se ofendido com a arte. Panmela recusou-se e a parede foi pintada de preto. O caso repercutiu em toda a imprensa, inclusive internacional.

Agora, mais uma vez, Panmela usou sua voz e sua arte para chamar atenção para esse assunto tão importante, sobretudo no Brasil, que possui a quinta maior taxa de feminicídio do mundo. De acordo com levantamento do Datafolha, cerca de 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativas de estrangulamento no Brasil. E entre os casos de violência, 42% aconteceram dentro de casa.

Este novo trabalho começou quase que por acaso. Panmela Castro postou nas redes sociais uma experiência que havia vivenciado na juventude e convidou outras mulheres a dividirem suas histórias. A resposta veio via e-mail acompanhada por selfies e os relatos foram tantos que resolveu transformá-los em um projeto artístico. Cada história - exposta na íntegra e com autoria anônima - foi transformada em um portrait, que ganha traços mais leves e soltos, diferentes do realismo dos murais da artista que estamos acostumados a ver.

Na entrevista concedida à Agenda Carioca, Panmela Castro fala mais do seu ativismo na luta pelos direitos das mulheres e sobre a nova exposição, que fica em cartaz até 31 de maio no Museu da República, no Catete.

AC: Você criou em 2008 o "Grafiteiras pela Lei Maria da Penha". No seu projeto, o principal foco era educar mulheres de áreas periféricas sobre seus direitos. Você acha que hoje, 14 anos após a lei entrar em vigor e 12 anos depois do lançamento do projeto, as mulheres estão mais cientes dessa questão?

P: Nas duas semanas finais do mês de março estarei na UERJ pintando um mural gigante da ex-ministra das mulheres Nilcéia Freire. A homenagem era para ser feita ainda em vida, mas não deu tempo e ela veio a falecer de câncer nos últimos dias do último ano. O meu trabalho com a Lei Maria da Penha foi possível porque, antes, Nilcéia aprovou a Lei, criou equipamentos de proteção à mulher e implementou políticas públicas de enfrentamento à Violência Doméstica. Antes disso, muitas de nós ainda achávamos que certas obrigações faziam parte de ser esposa e aceitávamos a violência como punição por não nos comportamos como nossos companheiros esperavam. A Lei Maria da Penha não veio apenas para punir os homens, mas também para nos educar e mostrar a todos que não somos mais um dos objetos da casa que os maridos possam fazer o que bem entender. Já há algum tempo as pesquisas mostraram que quase 100% dos brasileiros já ouviram falar da Lei Maria da Penha, mas sem dúvida nosso maior ganho foi a mudança na cultura, na forma como as pessoas pensam a mulher.

AC: Mesmo com melhorias nas leis - além da Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006, temos a Lei do Feminicídio, de 2015, que tipificou o crime - os números da violência contra a mulher no Brasil seguem crescendo. Como você acha que podemos diminuir esses números e qual o papel da arte nesta luta?

P. As pesquisas relativas à violência doméstica são quantitativas a partir do número de denúncias nas delegacias por exemplo, ou relacionadas à percepção das pessoas sobre a temática, isso porque, por se tratar de algo tão íntimo, que acontece no ambiente privado da casa, é impossível juntar números reais. A minha percepção pessoal é de que a cultura machista realmente emplaca o país nos recordes da violência doméstica, mas também aqui, por conta da implementação da Lei Maria da Penha, as mulheres passaram primeiro a reconhecer a violência doméstica - na própria lei os tipos de violência domésticas são indicados como psicológica, moral, patrimonial, sexual e física - e segundo, a se sentirem confortáveis para denunciar. Por muito tempo elas tiveram esperança sobre justiça. Não acho que os números aumentaram porque os casos de violência doméstica cresceram, acho que as mulheres passaram a denunciar cada vez mais. Porém entramos em crise e entre 2015 e 2019, o orçamento da Secretaria da Mulher foi reduzido de R$ 119 milhões para R$ 5,3 milhões . Com isso houve um desmonte dos aparatos de proteção à mulher. Hoje os equipamentos de proteção como as delegacias da mulher e os centros de atenção estão sucateados e sem estrutura para receber e acompanhar a demanda. Com a legitimação da cultura machista por parte de lideranças, os agressores voltam a pensar que não receberão uma punição ou de que tem algum direito sobre a mulher; policiais e juízes machistas ou despreparados não aplicam a lei como deveriam. Não funcionam os sistemas que antes garantiriam a proteção dessas mulheres. 

AC: Para a mostra "Retratos Relatos" você pintou 40 retratos - e 15 foram selecionados para a exposição. Imagino que você tenha recebido bem mais que 40 relatos... como foi essa curadoria?

P: Eu estou ocupando esta semana as três galerias de exposição temporária do térreo do Museu da República. Ainda sim, ocupando todo esse espaço, 15 foram o número de obras escolhidas por uma questão prática de espaço. Escolhi os retratos em conjunto com a curadora Keyna a partir dos retratos criados e dos tipos de relatos. Eu pessoalmente me apeguei mais aos primeiros com os quais convivi mais tempo no atelier, mas certamente pretendo mostrar os outros em outras ocasiões.

AC: Neste trabalho você mostra uma nova faceta: a de pintora de portraits. Como foi esse desafio?

P: Eu pinto retratos desde criança. Quando era nova, paguei os custos de estudar na Escola de Belas Artes da UFRJ fazendo retratos de pessoas no Largo da Carioca. Quando pintava murais, sempre retratei mulheres, então a novidade é que uni minha pesquisa com pessoas reais e comuns e as apresentei em um importante museu, espaço que em tantos anos foi dominado por homens brancos que faziam leis que incidiam na vida de nós mulheres. E agora retomamos este espaço para tratar sobre nossas próprias questões.

AC: Após o Rio, a exposição vai viajar por outros lugares do Brasil - e do mundo?

P: Estou tratando possibilidades em São Paulo, Brasília e Nova York. Com certeza estou aberta a convites.

AC: No dia da abertura da exposição, dia 7, haverá uma performance artística com sua presença. O que o público pode esperar? Pode nos contar um pouco mais sobre?

P: Pontualmente das 16h30 às 17h30 haverá um baile dançante no Salão Nobre do Palácio. O Baile é uma performance artística com a participação do público. Encomendei para o Dree, que é um dos melhores beatmakers do Brasil uma trilha sonora com a nossa cara, pra dançar de casal. É claro que durante a dança haverá uma surpresa para tratar sobre a violência contra a mulher, mas só as pessoas que estiverem no local na hora verão!

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