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Agenda 2030: Pandemia – escolhas do presente e futuros possíveis

Por Alessandra Carneiro | Publicado em 26 de maio de 2020

Estou convencida de que o mais profundo desejo que existe em cada um de nós, o que nos iguala em nossa humanidade, é o desejo de sermos amados, conquistarmos o afeto do outro.Então, para garantir que este desejo seja mais fácil de ser alcançado, agregamos às coisas o valor do afeto.

Agora, o afeto está ao alcance das nossas mãos, nas lojas e, claro, da marca das coisas, que define o valor, a qualidade do afeto que compramos e consumimos. O possuidor de tais bens vai conquistar o mundo do mundo. Assim é a sociedade de consumo, onde o ter determina o poder e o controle da narrativa da nossa vida e dos demais.

Voltando ao mundo em pandemia, li, semana passada, sobre a reabertura dos mercados e suas “tendências”, ou melhor, os esforços que estão sendo feitos para tranquilizar os consumidores que é seguro voltar a comprar. Máscaras, checagem de temperatura, desinfetantes, álcool em gel por toda a parte, acessos controlados de pessoas e o novo passaporte da imunidade (a nova liberdade).

Se olharmos, sem enxergar, estas possibilidades e conclusões apressadas escondem problemas e erros de cálculo que podem ter um catastrófico resultado social - capaz de segregar ainda mais a população pelo seu poder de compra. Um adendo: comprar e consumir não são consequências necessárias. Existe a apropriação indevida para o consumo.

Inauguraremos a indústria da segurança viral. Minha dúvida: será que os "Rappis" e "ifoods" conseguirão conviver conosco? Ou, desenvolveremos drones para delivery, em nome da segurança viral? O filósofo francês Michel Foucault organiza forças de poder e normas no conceito de biopoder:  “O controle da vida por parte do poder soberano (…) uma força externa, disciplinadora e normatizadora que incide sobre os corpos e suas subjetividades docilizando-as e adestrando-as”.

Se queremos aprender algo, certamente não será fazendo igual ao que sempre foi feito. Pedimos por mudanças, mas será que estamos de fato abertos às mudanças necessárias no âmbito pessoal? Queremos o gelo, mas será que entendemos que teremos que colocar água nas novas formas e esperar pela transformação do estado líquido no sólido?

Sedimentar novos hábitos requer aprofundamento e discernimento. Ir rápido demais pode nos levar de volta, nos iludir, que o novo normal será normalizar novas formas de consumos que garantem os antigos consumos. Temos que ter muita atenção como somos provocados pelo medo. Podemos provocar um novo normal com custos de vida maiores do que o anterior/atual. E daí, vai ficar mais caro para todo mundo.

É evidente que a reabertura é um desejo de todos, mas COMO faremos e quais as escolhas devem ser feitas são fatores determinantes para construir um mundo com mais, ou menos, justiça social. Y. Harari, quando perguntado sobre as consequências sobre a pandemia, sempre afirma que dependerá das escolhas que forem feitas: “Ao escolher entre alternativas, devemos nos perguntar não apenas como superar a ameaça imediata, mas também que tipo de mundo habitaremos quando a pandemia passar”.

Assistir ao filme Parasita, vencedor do Oscar de 2020, pode nos trazer boas perspectivas.

Claudia Girotti

Claudia Girotti é movida pela curiosidade, apaixonada pelo novo e a favor do ritmo da ação sustentável. É diretora de Marketing e Comunicação na Núcleo-i e busca sempre imprimir um olhar inovador sobre a vida. Para entrar em contato, mande um oi para [email protected].

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