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Um fim de semana em Buenos Aires: conhecemos dois dos melhores bares do mundo
Por Taís Moraes | Publicado em 20 de outubro de 2026
Confira o nosso roteiro dos bares que fomos em Palermo Soho.
Buenos Aires já não é aquela pechincha de outros tempos. Os preços subiram, o câmbio deixou de ser tão vantajoso para os brasileiros e o custo de vida também pesa no bolso dos próprios argentinos, que viram seu poder de compra diminuir. Mas a capital portenha continua irresistível, especialmente para quem gosta de comer e beber bem.
A apenas três horas de voo do Rio, a cidade foi o destino de uma viagem que fiz no fim de setembro. Entre restaurantes, cafés e passeios, aproveitamos para explorar a cena de coquetelaria de Palermo. E tivemos uma feliz coincidência: dois dos bares que conhecemos apareceram na edição de 2026 do The World's 50 Best Bars, ranking internacional que elege anualmente os 50 melhores bares do mundo e foi divulgado no dia 7 de outubro.
O Tres Monos, que ficou em 21º lugar, e o Victor Audio Bar, na 31ª posição, têm mais em comum do que a qualidade dos coquetéis: compartilham sócios, mas oferecem experiências completamente diferentes. Além dos dois premiados, conhecemos outros endereços que merecem entrar no roteiro de quem aprecia bons drinques, ambientes interessantes e música de qualidade.
O Brasil também garantiu dois representantes no ranking mundial de 2026, ambos em São Paulo: o Exímia, na 20ª posição, e o Tan Tan, na 35ª colocação.

Tres Monos: hospitalidade premiada e drinques sem formalidades
É fácil passar pela esquina das ruas Thames e Guatemala sem imaginar o que acontece atrás da fachada escura, identificada por três pequenos macacos em neon rosa. Inaugurado em 2019, o Tres Monos tem uma estética irreverente, com grafites, iluminação baixa e música, mas leva a coquetelaria e o atendimento muito a sério.
Fundado pelos bartenders Charly Aguinsky e Sebastián Atienza, aos quais se juntou Gustavo Vocke (na foto acima), o bar se tornou uma referência internacional. Em 2023, recebeu o Michter's Art of Hospitality Award, prêmio concedido pelo World's 50 Best Bars ao estabelecimento que se destaca pela hospitalidade. No ano seguinte, chegou à 7ª posição mundial e, em 2025, ficou em 10º lugar.
Na nossa visita, ficou fácil entender por que o Tres Monos já recebeu um prêmio internacional de hospitalidade. Sentadas à mesa, fomos atendidas por uma equipe que parecia ter tanto prazer em contar a história do bar quanto em servir os coquetéis. As atendentes explicaram os conceitos por trás das receitas, detalharam ingredientes e preparos e, antes de recomendar qualquer drinque, procuraram entender as preferências de cada uma.

Gosto especialmente de experimentar coquetéis autorais, daqueles que surpreendem pelas combinações de ingredientes. E ali, a escolha do que beber acabou se tornando parte da experiência. O atendimento era atencioso, sem formalidades ou discursos decorados, um contraste interessante com a estética irreverente do bar, onde grafites, luz baixa e música criam um ambiente descontraído.
Para quem prefere ficar mais perto da ação, o balcão permite acompanhar o preparo dos drinques e a interação com os bartenders. O trabalho da equipe vai além da mistura de bebidas, com pesquisas de ingredientes, fermentações, infusões e preparos desenvolvidos na própria casa.
O que provamos: Entre os coquetéis que experimentamos estavam o Pato Criollo, com gin Tres Monos, brandy de damasco e carpano bianco; o Garcia N' Roses, que combina Gancia, Chandon Extra Brut, melão, baunilha e pimenta-rosa; e o El Último Tango, com gin, erva-mate, huacatay e uva. Todos custavam 16 mil pesos argentinos na nossa visita, no final de setembro (cardápio da primavera 2026). Para acompanhar, pedimos croquetas de humita com queijo de cabra (18 mil pesos), empanadas, sanduíches de miga e papas conchetas, batatas com barbecue e mostarda antiga (14 mil pesos). A conta tinha desconto de 10% para pagamento em dinheiro, com gorjeta à parte.
Uma escola para além do bar
O trabalho do Tres Monos não se limita à coquetelaria. Desde a inauguração, os fundadores investem na formação de profissionais, por meio do Tres Monos Estudio e de iniciativas voltadas à comunidade.
Uma das mais importantes é a La Escuelita, projeto social desenvolvido no Barrio Padre Carlos Mugica, antiga Villa 31, em Buenos Aires. A iniciativa começou com oficinas gratuitas de coquetelaria para moradores, em 2021, e ganhou novas dimensões com a parceria entre o Tres Monos e o restaurante Niño Gordo.
A escola oferece formação profissional em áreas ligadas à gastronomia e ao serviço de bebidas, com o objetivo de ampliar as oportunidades de trabalho para moradores da comunidade. O projeto já ajudou a encaminhar participantes para empregos no setor, inclusive nos estabelecimentos envolvidos na iniciativa.
É uma dimensão menos conhecida de um bar que conquistou reconhecimento internacional sem abandonar a ideia de que hospitalidade também pode significar criar oportunidades.

Victor Audio Bar: quando a música também é protagonista
Se o Tres Monos aposta na irreverência, o Victor Audio Bar segue por um caminho completamente diferente. Inaugurado em 2025, em Palermo, o endereço combina coquetelaria de alto nível, decoração retrô e uma experiência musical que vai muito além da trilha sonora ambiente.
O bar nasceu da união dos sócios do Tres Monos com empresários ligados ao restaurante Niño Gordo. A proposta foi inspirada nos listening bars japoneses, espaços que colocam a qualidade da reprodução musical no centro da experiência.
No Victor, o sistema de som de alta fidelidade, a seleção de discos de vinil e a cabine do DJ, posicionada junto ao balcão, ajudam a construir a atmosfera. Logo na entrada, uma jukebox com fones de ouvido individuais convida os visitantes a escolher uma música para escutar.
Na nossa visita, encontramos uma proposta completamente diferente da do Tres Monos, embora a qualidade dos coquetéis tenha sido igualmente impressionante. O grande diferencial, para mim, foi a música. O ambiente retrô, a seleção de vinis e o cuidado com a qualidade do som fazem com que a trilha sonora deixe de ser apenas pano de fundo e se torne parte fundamental da experiência.
É o tipo de lugar onde vale prestar atenção tanto ao que está no copo quanto ao que está tocando. A carta de coquetéis também presta homenagem aos clássicos, especialmente ao martíni, apresentado em diferentes versões e interpretações. A cozinha segue uma inspiração americana, com pratos pensados para acompanhar os drinques.
Pouco mais de um ano depois de abrir as portas, o Victor conquistou a 31ª posição no ranking mundial de 2026, mostrando que os empresários conseguiram criar dois bares de personalidades distintas, ambos reconhecidos entre os melhores do mundo.
O que provamos: A carta de martínis inclui o Pornstar Martini, com espumante Chandon Extra Brut, Fabbri Passion Fruit, maracujá e baunilha, que pra mim foi o mais gostoso da noite, além de opções como o Dry Martini, o Dirty Martini e o Espresso Martini. Na nossa visita, os martínis custavam 18 mil pesos argentinos. O Aperol Spritz saía pelo mesmo valor.

Boticario: uma antiga farmácia dedicada à coquetelaria
Nem só de bares premiados vive a noite de Buenos Aires. Também em Palermo Soho, o Boticario foi outra ótima descoberta da viagem. Instalado em um imóvel que abrigou uma antiga farmácia, o endereço combina uma decoração cheia de personalidade com música boa e coquetéis autorais muito bem executados, além da música muito boa.
A inspiração no universo das boticas aparece em cada detalhe, dos frascos e referências a antigos laboratórios ao conceito dos drinques, que exploram ervas, botânicos, macerações e infusões. A proposta começou em 2017 e transforma o preparo dos coquetéis em uma espécie de laboratório de sabores.
Foi justamente essa combinação que me conquistou. Além da atmosfera envolvente, o cardápio aposta em receitas criativas, com ingredientes e técnicas que fogem do óbvio. Para quem, como eu, gosta de descobrir sabores e experimentar drinques que dificilmente encontraria em outro lugar, é um programa que vale incluir no roteiro.
A equipe também tem uma conexão brasileira: Luiza Xavier, bartender que já passou pelo premiado Tres Monos, agora integra o time responsável pelos coquetéis do Boticario.
Embora não esteja entre os 50 melhores bares do mundo, o Boticario mostra que há muito a explorar na cena de coquetelaria de Buenos Aires para além das premiações.
O que provamos: A carta aposta em versões autorais de clássicos. Estávamos na Negroni Week, então provamos o Negroni de Mandari e o Negroni Boticario (12 mil pesos cada), também pedimos o Martini 1930, preparado com gin Salvador infusionado com uvas e vermute dry com melissa (15 mil pesos), e o Bees Knees da casa, com gin Salvador, limão e mel (15 mil pesos). Também experimentamos o Pico y Pala de Valeriana, que combina amargo, tintura de valeriana, cordial de pomelo e pimenta-rosa, soda e castanhas de caju (16 mil pesos). Para acompanhar, pedimos bao de panceta laqueada com pepino em conserva (18.500 pesos a dupla), empanadas de carne com limão (7 mil pesos cada uma) e croquetas cacio e pepe, com parmesão, pimenta-do-reino e creme de missô (16 mil pesos).

Na nossa visita, uma das cartas de coquetéis também brincava com uma paixão tipicamente argentina: o futebol. Os drinques eram organizados segundo diferentes perfis de torcedores, com receitas que reinterpretavam clássicos usando ingredientes e destilados locais.

Nicky Harrison: um bar escondido que vale mais pelos drinques e música do que pelo mistério
Outra parada da nossa viagem foi o Nicky Harrison, em Palermo, endereço que combina gastronomia japonesa com a experiência de um speakeasy, inspirado nos bares clandestinos da época da Lei Seca nos Estados Unidos.
O acesso ao bar escondido envolve uma pequena encenação, com passagem secreta e todo um ritual para entrar. Confesso que achei a mise-en-scène um pouco forçada, mas o que encontramos lá dentro compensou o teatro.
A comida japonesa é deliciosa, com preparos criativos e muito bem executados. E os coquetéis também merecem destaque. Fiquei com um French 75 , clássico à base de gin, limão e espumante, enquanto o Aperol Spritz fez sucesso (sempre faz) entre as minhas companheiras de viagem menos criativas.
É um endereço que vale especialmente para quem quer combinar jantar, bons drinques e música boa na mesma noite, sem precisar mudar de lugar.

Quanto custa um drinque nos melhores bares de Buenos Aires?
Buenos Aires já não é um destino tão econômico para os brasileiros, especialmente quando o assunto é alta coquetelaria. Na nossa viagem, em setembro, os drinques custavam 16 mil pesos argentinos no Tres Monos, 18 mil no Victor Audio Bar e entre 12 mil e 16 mil no Boticario. Em alguns estabelecimentos, o pagamento em dinheiro garantia 10% de desconto. Não é exatamente um roteiro barato, mas, para quem aprecia bons coquetéis, a criatividade das receitas, o cuidado no atendimento e as experiências tão diferentes entre si fazem a viagem valer a pena. E a boa notícia é que esses quatro endereços ficam em Palermo, o que facilita explorar mais de um na mesma noite.E com tantos endereços interessantes concentrados em Palermo, dá até para montar um roteiro de bares pelo bairro, desde que haja disposição para esticar a noite.
Serviço
Tres Monos
Guatemala 4899, Palermo, Buenos Aires
Instagram: @3monosbar
Victor Audio Bar
Soler 5130, Palermo, Buenos Aires
Instagram: @victoraudiobar
Boticario
Honduras 5207, Palermo, Buenos Aires
Instagram: @boticariobar
Nicky Harrison / The Harrison Speakeasy
Malabia 1764, Palermo, Buenos Aires
Instagram: @nicky.bsas