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Ilha Grande com Crianças: 4 dias de praia boa, trilhas tranquilas e jantares difíceis
Por Taís Moraes | Publicado em 21 de julho de 2026
Crianças de férias, trabalho remoto e uma previsão de vários dias de sol. Foi o suficiente para decidir voltar à Ilha Grande — ou, no meu caso, praticamente conhecê-la de novo. Mesmo pertinho do Rio, eu não ia para lá desde o Carnaval de 2003, quando choveu tanto que uma das lembranças mais nítidas que tenho é a de caminhar em uma trilha para Lopes Mendes com um saco preto improvisado como capa de chuva (mas nem aquele mar mega verde que tanto falam eu consegui ver naquela época). Provavelmente avistei uma praia bonita, mas o que ficou mesmo na memória foi o “trauma meteorológico”. Por mais de duas décadas, passei a acreditar que naquela ilha chovia sempre no verão e nunca mais tinha voltado.
Desta vez, a torcida pelo sol deu certo e confirmou a previsão: não apareceu nenhuma nuvem no céu. De quinta a segunda, tivemos praias de água transparente, peixes em volta das pernas, trilhas curtas, uma gruta com água que parece fluorescente e duas crianças encantadas com quase tudo. Os jantares nem sempre saíram como o planejado, mas até os imprevistos acabaram entrando para as histórias da viagem que meu filho de 7 e minha filha de 10 anos vão guardar na memória.
Como chegar em Ilha Grande
Seguindo as recomendações de amigos e da Pousada Praia da Crena, deixamos o carro em Conceição de Jacareí e fizemos a travessia de flex boat, que partia a cada hora. O bilhete de ida e volta, reservado pela hospedagem, custou R$ 120 por pessoa — crianças nas idades deles pagam o valor integral. Na agência, a mesma passagem estava sendo oferecida por R$ 140.
Havia ainda a opção do táxi boat (um barco menorzinho), por R$ 90, mas como o mar estava batido neste dia, o pessoal da pousada nos avisou que alguns passageiros tinham chegado molhados, então optamos pelo barco maior.
O estacionamento indicado pela agência cobrava R$ 40 pela vaga coberta e R$ 30 pela descoberta. De lá, seguimos até o cais com as malas em um carrinho elétrico de golfe, e eu me lembrei dos tempos em que eu circulava neles pelos bastidores do Projac.
A travessia levou entre 15 e 20 minutos. Ao desembarcarmos na Vila do Abraão, nos avisaram para permanecermos no píer à espera do barco da pousada, que nos levaria à Praia da Crena em cerca de cinco minutos.
A recomendação de não sair era para evitar que nos cobrassem em duplicata a Taxa de Turismo Sustentável de Angra dos Reis. Essa é novidade: desde 1º de junho, para quem embarca em outro município, como Conceição de Jacareí, e comprova ao menos duas diárias em uma hospedagem regularizada, o voucher custa R$ 50 e vale por 30 dias. Sem essa comprovação, a taxa pode chegar a R$ 100. Crianças de até 12 anos, idosos a partir de 60, pessoas com deficiência, moradores e outros grupos previstos nas regras são isentos.
Na prática, ninguém nos cobrou. Quando chegamos no cais de noite para comer na vila, não havia ninguém no local, então pagamos pelo site Viva Angra. A cobrança virou motivo de protestos de moradores e profissionais do turismo, que afirmam já perceberem a redução do movimento e questionam o modelo adotado. Algumas pessoas com quem conversei e preferem não se identificar, disseram que não conseguem ver transparência no direcionamento do dinheiro arrecadado com a nova taxa e temem que ele seja desviado para propostas que não beneficiem diretamente a ilha. Uma segunda manifestação estava marcada para a quinta-feira, dia 23 de julho na Vila do Abraão.
A Chegada na Praia da Crena
Chegamos à Praia da Crena por volta das 14h. A pousada fica afastada do movimento da vila, mas não isolada: são cerca de 20 minutos de caminhada até o Abraão e menos de dez até Abraãozinho. De barco, o trajeto para a vila leva aproximadamente cinco minutos. Nossa diária incluía uma ida e volta por dia, um detalhe importante para quem viaja com crianças e pretende jantar fora (a última volta era às 23h).
Passamos a tarde na praia e almoçamos no restaurante da própria pousada. O peixe com camarão para duas pessoas custou R$ 270 e serviu aos quatro com moderação. Estava gostoso, embora o preço tenha confirmado rapidamente que estávamos num destino turístico. Caipirinhas e drinques saíam entre R$ 30 e R$ 40.

À noite, pegamos o barco para procurar um restaurante no Abraão. Sem indicações, recorremos às avaliações do Google e escolhemos o Trattorilha, de frente para a praia. Sentamos numa mesa na areia bem agradável (procuramos um lugar que não tivesse música ao vivo). Os pratos individuais de massa custavam cerca de R$ 90 a R$ 95; pedimos ravioli e linguine com ragu para as crianças e ficamos com dois sanduíches de focaccia, um de polvo e outro de presunto de Parma. Tudo veio gostoso e bem preparado, especialmente a focaccia de polvo. Como os pratos demoraram quase uma hora para ficarem prontos, desistimos da sobremesa e voltamos para a pousada no barquinho das 21h.
Sexta-feira: Abraãozinho e um hambúrguer sem nome
Na manhã seguinte, depois do café da manhã, caminhamos menos de dez minutos até Abraãozinho. Lá só tem dois estabelecimentos e escolhemos o Bar Aperitivo, restaurante de origem caiçara com mesas e cadeiras diante do mar. A promoção anunciava duas caipirinhas por R$ 30. Pedimos também iscas de frango como aperitivo e na hora do almoço um filé de frango crocante para duas pessoas, acompanhado por arroz, batata frita ou salada. O prato custava R$ 130,90; acrescentamos uma salada simples, de R$ 24,90. Além de bem servido e rápido, foi uma experiência muito mais tranquila.
As crianças adoraram brincar nas pedras do lado direito da praia, onde viram estrelas do mar e ouriços enquanto a maré subia.

À noite, voltamos à Vila do Abraão. No barco, comentamos que pretendíamos conhecer o Lady Roots e uma família nos avisou para tomar cuidado com a “pegadinha”. É que havia dois estabelecimentos vizinhos, o bistrô e o restaurante (o bistrô bem mais caro e com comida que não compensava o preço). Fomos ao segundo, pedimos uma pizza e outros dois pratos. A pizza chegou em cerca de meia hora; mas depois de uma hora aguardando, fomos perguntar aos funcionários e, como disseram que o restante ainda demoraria, levantamos e decidimos mudar de lugar.
Foi assim que encontramos uma das melhores surpresas gastronômicas da viagem. Num pequeno centro comercial praticamente ao lado deste restaurante, tinha uma hamburgueria sem nome aparente que servia cheeseburgers a R$ 17. Como acompanhamento, o sucesso eram as batatas artesanais cortadas bem fininhas. Ao lado, com mesas compartilhadas, tinha um bar de tacos chamado Chiwawa, que preparou em poucos minutos uma quesadilla de frango de R$ 45.

Já alimentados, passamos pela festa junina da vila e ainda dançamos um pouco. Mais tarde haveria a apresentação de um grupo de quadrilha, mas o cansaço infantil determinou o fim da noite. Durante todo o dia chamou a nossa atenção a quantidade de estrangeiros, principalmente argentinos e franceses. Achei curioso encontrar tão pouca gente do Rio, mesmo sendo tão perto daqui.
Sábado: a gruta com água que brilha
O sábado foi reservado ao passeio mais elaborado de lancha tipo taxi boat. Fechamos na véspera com a Tripmar, por intermédio da agência Objetiva e da pousada, o percurso de lancha que combinava parte da chamada meia-volta na ilha com Gruta do Acaiá. Pagamos R$ 150 por adulto; a criança de 10 anos pagou meia e a de 7 foi isenta. Éramos 11 passageiros, conduzidos pelo barqueiro super simpático e prestativo Iuri.
O itinerário passou pela Lagoa Azul, Lagoa Verde, Praia de Grumixama, Gruta do Acaiá e Praia de Maguariquessaba. As crianças gostaram especialmente das lagoas e dos cardumes que se aproximavam quando a gente jogou casca de banana na água. Como o almoço seria tarde (somente às 17h), levamos bananas e sanduíches — precaução que recomendo a qualquer família num passeio longo de barco.
A Gruta do Acaiá foi o ponto alto, mas também o momento mais tenso do dia. O acesso começa por uma passagem estreita, com cerca de cinco metros de profundidade, que leva a um salão subterrâneo de apenas 60 centímetros de altura. É preciso avançar e voltar quase sentado, entre pedras, num ambiente escuro onde não há espaço para ficar em pé. A luz do sol entra por um túnel submerso e faz a água do mar ganhar um brilho azul-esverdeado, quase fluorescente.

Na nossa visita, a entrada custou R$ 20 por adulto, com pagamento em cartão, e as crianças não pagaram. Elas encararam a descida com mais tranquilidade do que eu. Ficaram fascinadas e logo perguntaram se poderiam mergulhar naquela água brilhante. Não poderiam: o poço se comunica com o mar por um túnel submerso, e tentar atravessá-lo é extremamente perigoso.
Não sou claustrofóbica, mas confesso que senti um certo nervoso. Tirei algumas fotos, olhei o suficiente para entender por que o lugar impressiona tanto e tratei de voltar. As crianças adoraram — mas, quando perguntei se repetiriam a experiência, responderam que não. Concordamos nisso.

O almoço já no caminho de volta para o Abraão foi no Pérolas do Mar, na Praia de Maguariquessaba. O pedido havia sido feito diretamente ao barqueiro antes de entrarmos na gruta, para que estivesse pronto na nossa chegada. Escolhemos o arroz com camarão, de R$ 180, que serviu bem aos quatro. Estava saboroso, os camarões eram grandes, não demorou para chegar na mesa e contrariou a desconfiança que acompanha os restaurantes incluídos nas paradas de passeios.
A volta de barco foi gelada, então se prepare levando quebra-ventos ou casacos. As noites da viagem, aliás, foram bem frias, chegando a marcar 16 graus no termômetro.
Como a refeição aconteceu no fim da tarde, à noite voltamos direto ao hambúrguer sem nome e repetimos também a quesadilla do Chiwawa, desta vez de carne de porco e também pedimos outros sabores de taco, além dos nachos artesanais fritos na hora.

Domingo: praia da pousada, volta de caiaque e crepe da praça
No domingo, ficamos na Praia da Crena. Enquanto as crianças brincavam com caranguejinhos e passeavam de caiaque, eu aproveitei para fazer a trilha de 20 minutos até o Abraão. O percurso é tranquilo e passa pelas praias Comprida, da Bica, da Júlia e do Canto. A última, apesar do nome, é apenas o trecho final da própria Praia do Abraão. É lá na pontinha onde fica o Che Lagarto, albergue que costuma atrair o povo para ficar bebendo e curtindo até tarde.
À noite, depois da final da Copa, paramos na Creperia Tropicana, onde os crepes salgados custavam entre R$ 45 e R$ 72. Depois de mais de uma hora questionamos e o nosso pedido ainda ia demorar mais uns 20 minutos. O responsável pediu desculpas, não cobrou as bebidas (pelo menos isso) e sugeriu que comêssemos na festa junina. Sem comentários. Na praça em frente à igrejinha, avistamos uma barraca de crepes e o moço trabalhando sozinho fez quatro crepes de R$ 35 em cerca de sete minutos. As crianças pediram queijo com presunto e os adultos carne seca com catupiry. Comemos sentados no meio-fio, como quem já havia entendido que nem todo bom programa precisa acontecer conforme o planejado.

Segunda-feira: a volta
Na segunda de manhã, pegamos o barco da pousada até o Abraão e encontramos uma fila grande para o flex boat. Como havia muita gente esperando, a empresa colocou uma saída extra às 11h30, além dos horários regulares. A travessia até Conceição de Jacareí foi rápida e tranquila. Depois, recuperamos o carro no estacionamento — desta vez sem o carrinho elétrico do Projac.
A Ilha Grande que encontrei 23 anos depois estava mais vazia do que eu imaginava, mas com muitos argentinos e franceses, mas com aquele mesmo mar verde brilhante que não existe em nenhum outro lugar do mundo. O antigo trauma da chuva ficou para trás e eu repetiria a pousada, o passeio de lancha para outras praias e as trilhas curtas.
Os jantares foram a parte mais improvisada da viagem. Talvez, numa próxima visita, eu aposte nos pratos feitos (mesmo em lugares menos convidativos). Ou continue decidindo tudo na hora — com a possibilidade de tudo acabar em crepe na praça.

Informações importantes:
Travessia por Conceição de Jacareí: flex boat reservado pela pousada por R$ 120 por pessoa, ida e volta. Crianças pagaram o valor integral. Duração aproximada de 15 a 20 minutos por trecho.
Estacionamento: R$ 30 por dia em vaga descoberta e R$ 40 na área coberta.
Hospedagem: Pousada Praia da Crena — @praiadacrenaoficial. O acesso à Vila do Abraão pode ser feito por uma trilha de cerca de 20 minutos ou por barco. Na reserva da família, uma ida e volta diária estava incluída.
Passeio: Tripmar — @tripmar.ilhagrande. Valor pago: R$ 150 por adulto; criança de 10 anos pagou meia e a de 7 teve gratuidade. A entrada na Gruta do Acaiá foi cobrada à parte: R$ 20 por adulto na data da visita.
Taxa de Turismo Sustentável: o voucher regular custa R$ 50 e vale por 30 dias. Para quem embarca fora de Angra e pernoita na ilha, é preciso comprovar ao menos duas diárias em hospedagem regularizada; sem o comprovante, o valor pode chegar a R$ 100. Crianças de até 12 anos, pessoas com deficiência e idosos a partir de 60 estão entre os grupos isentos.
Informações e emissão: Viva Angra.
A viagem, a hospedagem, os passeios e todas as refeições foram pagos pela autora. Preços conferidos em julho de 2026 e sujeitos a alterações.